Paráfrase


Meus olhos estão vendados, não consigo mover as minhas mãos, mas ouço os gritos de alguém que fala não saber de nada. Eu serei o próximo. Dor, muita dor. Difícil ser marginalizado por algo que não deveria ser crime. Lembrei-me da tia Maria, a dor dela deve ter sido pior que a minha ao perder o primo Juninho. A dor do Juninho deve ter sido pior que a minha: perdido por aí, de certo morto. E a dor da minha mãe? Pobre, mãe. Aposto que não voltarei para casa. Disso não sinto dor, sinto conformismo, sei que vou morrer.  Vou morrer porque não sou rico, não sou filho de gente importante, não sou cantor, não tenho dinheiro para me autoexilar. Não tinha dinheiro nem para visitar a tia Maria. Vou morrer porque sou um ninguém, nesse país de alguém, que não sou eu.
Acho que o outro já se foi, é a minha vez. Acho que vou me poupar de falar, eles nem querem saber mesmo. Quanto mais rápido eu morrer, melhor. Espero que eles escolham uma forma mais rápida, que Deus seja por mim nessa hora.

Paráfrase
Achados e perdidos – Gonzaguinha

Maria Eduarda Nascimento

(Texto desenvolvido em 16/10/12 para fazer parte do acervo do blog Cangaço Groove.  O texto girou em torno da semana de homenagens às pessoas que sofreram com a ditadura militar no Brasil.  O título "Paráfrase" foi escolhido porque foi inspirado da música "Achados e perdidos" de Gonzaguinha.) 

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