Devolva-nos

           Voltava de um dia estressante. Cálculos não são feitos para mim, e não deveriam ser para ninguém. Olhei o por do sol e o subi para o ônibus. Quando estou sem paciência, tudo parece irritante, mas acho que isso é com todo mundo. Ouvi o som de uma voz desafinada, que cantava um brega conhecido, misturado com o barulho do motor velho do ônibus. Procurei um assento bem no meio, o que tinha a janela travada, mas aberta. Precisava observar melhor o horizonte, respirar um ar limpo. Abri o livro de contos e permaneci um tempo numa só página, por conta do barulho.
O motorista demorou a arrancar o trambolho do lugar, por conta dos desatentos que permaneciam na frente da instituição conversando, como se os outros passageiros pudessem atrasar por não terem obrigações. Fiz cara feia quando esses subiram na condução, talvez na esperança de que isso não se repetisse, ou para descontar o meu estresse em alguém mesmo. Voltei ao conto.
Durante o percurso sempre paro de ler e fico admirando o caminho. A visão não é tão bonita, mas o horizonte ofusca todas as outras coisas ao redor. E o ar era limpo, dava para se inspirar nele.
Era e dava. Voltando para o presente: o ar nunca foi tão poluído, começando do motor do ônibus, das queimadas na mata, ao trânsito caótico. Podia sentir o dióxido de carbono entrando e infectando os meus pulmões. Poderia ver as moléculas se misturando, analisar cada uma delas de perto.
A paisagem também mudou muito. Antes não havia tanta gente, nem tantos carros. O ônibus velho demorava exatos vinte e cinco minutos para me deixar perto de casa e eu demorava dois para atravessar a avenida. Hoje consigo realizar as duas ações em, mais ou menos, quarenta.
Quando estava andando pela rua, desejei que chovesse e que a água abaixasse a nuvem de poeira, de calor e o cheiro da fumaça, que também estava impregnado em mim. Desejei que me lavasse, que lavasse tudo, que levasse a sujeira e que trouxesse tudo de volta.

Mas assim como reação química, parece que o progresso não permite que as coisas retomem as formas de como eram antes.    




Maria Eduarda Nascimento

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