Nostalgia


Foi triste passar pela porteira e não conseguir encontrar tijolo sobre tijolo. Não consegui distinguir a sala, meu quarto, a cozinha. Aquelas vezes em que eu não conseguia assistir os filmes que meus irmãos estavam assistindo, por medo. Ou quando mudava os ridículos desenhos japoneses deles pelos Teletubbies. Quando nos juntávamos todos na sala para assistir as fitas que minha mãe havia alugado, enquanto ela cozinhava ou dava um pulo na casa da vó.
O campinho que eles brincavam todos os dias ainda está lá, mas a varanda em que eu assistia, querendo participar da brincadeira, não. A vala em que eu caí aprendendo andar de bicicleta está, mas o quartinho em que eu a guardava, não.
A baia dos cavalos ao lado da nossa casa, a janela do meu quarto onde eu os via todos os dias de manhã, o gesto de acaricia-los, tudo sumiu.
 Às vezes havia morcegos no teto e um dia tinha uma cobra, mas era especial quando eu e meu irmão deitávamos no sofá em L para observa-los. Era legal correr para a estante, pegar um livro e deitar naquele sofá. Quantas vezes viajei de conto em conto com os pezinhos pra cima, enquanto meus irmãos tinham saído escondido para andar a cavalo ou dar um mergulho na pedreira? 
Pareceu conveniente se mudar para cidade, deixar a casa sozinha e aparecer cada vez menos. Estávamos crescendo, evoluindo e o espaço rural não nos era mais interessante. Mas vê-la em ruínas, destruída, reativou todas as lembranças. Gerou em sentimento de culpa saber que ela passou tanto tempo reservando  o nosso passado, nos esperando, e preferimos deixá-la só, trocando tudo por milhares de reais. 
Olhando em volta agora, aquele dinheiro não valeu a pena. 

Maria Eduarda Nascimento

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